Dias de Macarronada na Tunísia

Ontem a noite um colega de trabalho reservou uma mesa para 30 pessoas no Circolo Italiano de Tunis.

Além do pessoal da empresa foram convidados outros colegas de empresas parceiras. Era uma noite completamente informal, sem chefes, com vinho e principalmente um menu delicioso. La festa del Cinghiale, ou A festa do Javali.

O Círculo Italiano fica no centro de Tunis, em um prédio de esquina de três andares, acredito eu construído ainda na época em que os franceses eram os donos do país.

Subimos três andares de escada, e demos de cara com a cozinha. Lá dentro um italiano pançudo e simpático com um avental completamente sujo de molho, quando viu a horda de gente chegando pelas escadas, avisou que o salão da janta era na porta ao lado.

Chegando no salão havia três mesas grandes, duas já ocupadas com grupos grandes. Os garçons começaram a nos servir uma série de entradas, trazer água e vinho, o pessoal se aquietou nas cadeiras, apresentações foram feitas e o banquete começou.

O primeiro prato foi Papardelle al Ragù di Cinghiale, bolonhesa de Javali, e foi de lamber os beiços. O povo brigou por repeteco, estava realmente uma delícia. Se tiverem oportunidade, não deixem passar, é de primeiríssima qualidade. O vinho que o pessoal bebeu era local, e eu ainda não consegui entendere como um país muçulmano, onde beber é considerado pecado grave e todo mundo controla todo mundo pode ser produtor de vinhos. Eu não sei qual era o vinho pois não bebi, mas o pessoal comentou que era bom, que tinha até mesmo sido premiado em Paris.

O segundo prato foi batatas com costela de javali, e o gosto era ótimo. Mas as danadas das costelas estavam tão duras que eu preferi não insistir muito com elas. Deixei metade no prato.Quando chegou a hora do café e da sobremesa é que a coisa esquentou. Cheios de vinho na cabeça a italianada já não conversava, gritava.

Na mesa do lado levantou um troglodita, de uns dois metros de altura, uns 40 anos, cabeça raspada e duas tatuagens, uma em cada lado do crãnio, com uma cara de mau de dar medo. Quando vi o maluco de pé, olhando pra nós, juro que pensei que ia ter confusão. Detalhe, na nossa mesa só tinha homem. E sóbrios, se eram em 4, eram já muitos. Ledo engano. O cara olhou pra nós, pegou uma caneca de vinho, bateu com a colher nela pra chamar a atenção e quando o povo silenciou um pouco, ele diz, com uma voz afeminadérrima:

– Meninos, silêncio, vai começar o Karaoke!

UPDATE: Fotos da noite!

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Nesse momento era o início da perdição de linha. Começaram cantando Volare. Depois desencavaram vários sucessos italianos dos anos 60 aos 90, Ligabue, Battisti, De Gregori, Celentano e até Mina e Caruso. Fizeram corinho, se abraçaram, quase choraram. Parecia cena de filme, me diverti pacas.

O mais engraçado nessas horas é ver o pessoal que se odeia no trabalho se transformar em irmão de sangue, com um pouco de vinho na cuca e umas musiquinhas sentimentais. Essa coisa de estar no exterior faz desse pessoal muito sensível ao que se refere à pátria. A maioria dos meus colegas estão pela primeira vez longe de casa, e qualquer coisa que lembre a terrinha deles é motivo de obsessão.

Por volta de uma hora da manhã peguei uma carona pra casa, com a barriga cheia e uma simpática lembrança da Festa del Cinghiale. Meu apartamento estava gelado, liguei o aquecimento, e dormi contente.

Hoje foi a festa de confraternização da empresa. Fomos todos, 70 pessoas, a um restaurante chamado Da Franco, em Hammameth. Fica a uns 50 minutos de Túnis. Como o Milan ganhou do Bocca a italianada estava toda contente. E de novo o povo encheu a cara de vinho tunisiano, mas tentando não perder a linha já que a diretoria toda estava presente. Foi bem divertido também, já que foi a primeira vez que toda a equipe do projeto esteve junta.

Eu conhecia a maior parte do pessoal, mas alguns não conhecia pessoalmente. O pessoal local que foi convidado se entrosou bem, e realmente acho que amanhã todos vão ir para o trabalho mais satisfeitos. E dá-lhe macarronada!

Esta semana, se tudo correr como deve, pego um vôo para o Rio. Não vejo a hora de ver a família, dormir na minha casa, curtir um pouco de férias. Cidade Maravilhosa, aqui vou eu!

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