O Cabeludo

Em Dondo, no dia 1º de janeiro, tive a oportunidade de conhecer o Cabeludo. O Cabeludo é um português, que em 1972 chegou à Angola com as tropas de Portugal para lutar contra o movimento de independência angolana. Depois dos dois anos de serviço militar, resolveu ficar por aqui, e depois de uns anos acabou se estabelecendo na cidade de Dondo, que pouco sofreu em termos de combates durante a guerra, e onde vive há mais de 20 anos.
O Cabeludo é um dos personagens estranhos desta África, que continua a me surpreender. Ele passa todo o dia sentado na rua central de Dondo, uma aléia arborizada, com velhos casarões portugueses da época colonial em estado decadente, vendendo cartões de telefone pré-pag enviados de Luanda pela filha mais velha, que faz universidade na capital.
As pessoas da cidade chegam, ele bate papo, pedem cartões, ele vende, tem no bolso um maço de dinheiro daqui, outro de dólares, e parece ser bem querido por todos. Abraça as velhinhas, pergunta da família, um verdadeiro diplomata do povão daqui.
Um dos italianos que está trabalhando em Dondo para nossa empresa me contou que o Cabeludo é o único branco da cidade. E os únicos mulatos são os filhos dele. Nestes anos de África o Cabeludo que coleciona selos de todo o mundo, e inclusive me pediu alguns do Brasil, desenvolveu uma coleção interessantissíma de filhos. O bendito tem 24 filhos, de várias mulheres diferentes. Vive com todos eles e com a esposa mais recente em algumas casas coloniais das quais se apropriou depois da independência. As casas foram transformadas em oficinas, e os filhos trabalham a madeira e o ferro, aprendem o ofício do pai e vida que segue. Certamente hão de ser um clã diferenciado no meio da cidade…

Mando algumas fotos desta rua em Dondo, inclusive do Cabeludo. Dondo é uma cidade adorável, bucólica, realmente agradável. É certamente perdida no tempo, como o interior de Angola que conheci, e me pareceu uma Parati abandonada no meio da floresta, invadida pela poeira e pelo descaso que sucederam os anos de guerra. Vejam vocês as fotos e comentem!

PS: Os “miúdos”, que para nós são os intestinos e vizinhança, para o povo daqui são as crianças. Pois os miúdos das fotos são todos crias do Cabeludo!

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