Fuga de Cacuaco

Os amigos leitores mais frequentes devem ter notado que já há algum tempo não dou notícias. Espero que entendam que não estive presente por motivos de força maior. Vou fazer um resumo dos fatos insólitos desta semana para que vocês possam, principalmente, se divertir. Me arrependo profundamente de não estar com a máquina fotográfica nestes dias comigo.

 Domingo, dia 21 de janeiro deste 2007, estive o dia inteiro trabalhando em Luanda, na casa de um colega, em uma apresentação que deveríamos fazer para um cliente de alta patente, que além de abrir gigantescas portas, poderia gerar gigantescos contratos. A apresentação estava programada para segunda-feira às 17:00, e por volta da meia-noite de domingo eu estava com ela quase completada. Como era tarde, e eu precisava voltar para o Rèsidence em Cacuaco, cerca de 20Km de onde eu estava em Luanda, ponderamos que finalizaríamos a apresentação no dia seguinte, afinal o que faltava era detalhe estético. Cheguei ao meu quarto em Cacuaco era passada meia-noite e uma fina garoa caía sobre nós.

Segunda-feira, seis horas da manhã, toca o despertador. Me espreguicei na cama, apertei o soneca do despertador e ronquei mais 15 minutos, sob o murmúrio de uma chuva intensa. Como sempre acontece pela manhã, veio aquela vontade de ir ao banheiro aliviar a bexiga, me girei na cama, e fui procurar, com o pé, no escuro, as sandálias havaianas. Água. O chão estava coberto de água fria! Ponho o outro pé no chão, levanto, corro para o interruptor, acendo a luz e vejo quarto e banheiro alagados, havainas e garrafas de água mineral vazias boiando, assustador! Quando me preparo para ir reclamar na recepção, uma pequena enxurrada de água e terra entra assim que abro a porta. O rèsidence, a excessão de 3 dos 8 quartos, estava alagado e cheio de lama. Cozinha, recepção, banheiros, tudo alagado. A água surgia da rua, da piscina que transbordava, da cisterna cheia, do esgoto. Se o leitor somar uma enchente do Rio Maracanã, uma ressaca no Leblon, e um desabamento no Alto, chega perto do que aconteceu no Rèsidence.

Eram 6:30 da manhã, ninguém havia acordado do pessoal que trabalha ali, e eu era o único hóspede. Acordei o rapaz da recepção, que dormia no sofá e não tinha notado que lá também estava alagado, e ele, meio dormindo, ao ver a situação me olhou com desdém e disse: “- Está chovendo mesmo forte, ó pá!”. Voltou a se deitar, tranquilo, como nada de mais estivesse acontecendo! Não aguentei a cara de apu e lhe gritei nos ouvidos, mandei desligar a eletricidade antes que alguém morresse eletrocutado, e que me desse a chave de outro quarto, seco. Enquanto eu passava uma vassoura para tirar o excesso de água do corredor, para evitar que o outro quarto se alagasse, o carinha voltou a dormir, reclamando que sem luz não havia ar condiconado.

Às 8:00 eu estava com tudo no outro quarto, de abnho tomado, pronto para sair, pela primeira vez de terno e ainda chovia forte. Liguei para Luanda avisando que me atrasaria devido à chuva, entrei no Mitsubishi 4×4 Diesel, e comecei o caminho até a base onde meu motorista me espera todos os dias, cerca de 10 a 15 minutos do Rèsidence. Veio comigo um rapaz angolano que pediu uma carona, o mesmo fdp que dormia no sofá. Não recusei, pois se atolasse precisaria de braços, afinal de terno na lama é barra. Mas passei pela lama com certa facilidade, e, chegando ao asfalto, havia uma compreensível ausência de carros. A chuva estava forte, e a maioria dos carros não aguenta as poças e a lama da cidade, em geral esperam a chuva passar.

Vim tranquilo, passei a vila de Cacuaco, e ao chegar perto da ponte que liga Cacuaco a Luanda, um carro que cruza na direção contrária, com uma família dentro, faz sinal e avisa que a ponte está coberta de água, que está muito perigoso passar. De qualquer maneira continuei no meu caminho para ver se a ponte estava cheia d’água a ponto de não passar o Mitsubishi. No trajeto, pouquíssimos carros, mas muitas pessoas gritando e chorando, suponho porque a casa tinha sido levada pela chuva ou estava alagada, uma verdadeira multidão na pista. Acabei por desistir antes mesmo de chegar às salinas antes da ponte. Liguei novamente para Luanda, avisei a situação e me disseram que havia um outro caminho, por Mulenvos de Cima. Eu conhecia o caminho até certo ponto, mas de Mulemvos para Viana não me parece ser complicado, e lá fui eu.

A pista estava intransitável, o carro atolou duas vezes, o preguiçosos do sofá saiu e empurrou, minha vingança e acabei voltando para o Rèsidence.

Era algo como 11:00 quando um colega de Dondo (GN) apareceu no Rèsidence, vinha para Luanda entregar alguns documentos, mas com a ponte caída em Cacuaco, não tinha como chegar no escritório. Tomamos café da manhã (eu tinha saído antes em jejum), a chuva parou, e resolvemos ir a Catete, uma cidade que fica a 1h30 de Luanda, e de lá irmos para Viana (o mesmo município ligado a Mulemvos), de onde há uma outra estrada para Luanda, praticamente todo o trajeto asfaltado ano passado por uma empresa portuguesa. GN tinha passado por lá para chegar a Cacuaco. E lá vamos nós pôr o pé na estrada.

Apesar de asfaltada, a estrada tinha lá seus contratempos.Passamos por várias poças d’água que chegavam quase à maçaneta da porta, e em algumas parte o asfalto havia sido inundado por terra e lama, e só se passava com a tração ativada. Quando nos aproximávamos de Catete, uns 15 minutos antes, um grupo de pessoas se aglomerava no meio da estrada. Saímos do carro para ver o que acontecia, e onde havia a estrada, entre duas lagoas, só havia um buraco e asfalto cortado. Uma parte da pista tinha sido levada pela força das águas. Sorte de quem passou por ali, como o GN, poucas horas antes. Decidimos voltar a Cacuaco e tentar outra estrada de terra, onde há um projeto chamado Terra Verde, de cultivo agrícola, entre Cacuaco e Catete. Também interditada, com carros atolados por toda parte. Ajudamos um carro a sair do atoleiro, onde estava um grupo de caçadores. Eles pretendiam seguir viagem para Luanda a todo custo, e falaram de uma picada, antes da ponte caída de Catete, por onde poderíamos passar.

Depois de uma pequena assembléia decidimos tentar achar a “picada”, e já eramos quatro carros. O caçadores, em um Land Rover, mostravam o caminho, seguidos por GN no seu Mitsubishi, por mim, em um Mitsubishi igual, e por uma família em um jipe desses japoneses que não sei identificar. O Comboio seguiu para Catete, e pouco antes da ponte, havia realmente uma estradinha de terra pela qual seguimos. Acabamos por chegar em uma vila, com dois portugueses anciões morando em duas casas antigas, acabadas mesmo, com um empório onde vendiam biscoitos fabricados na Arábia Saudita, água fervida, e milho assado. E ponto. Paramos, comemos (eu apenas biscoito seco, que “água fervida” comigo não cola), assuntamos e nos informamos o caminho.

 Os velhinhos garantiram que com 4×4 se passava pela picada até a estrada de Viana, coletamos um grupo de locais que vivem em casebres no entorno das casas para ajudar e mostrar o caminho. Foi realmente uma aventura a lá Indiana Jones. Bem lentamente começamos a seguir a estrada, que cada vez mais nos levava floresta adentro. Passamos por um rio, por muitas poças e o Land Rover, para tentar desviar de um valão de lama, resolveu seguir pelo capim, fora da estrada. Nesta hora eu me dei conta de que os caras eram loucos, esta terra está cheia de minas, todo dia explode uma, principalmente nessas beiradas do fim do mundo…

Não explodiram mas acabaram enterrados no meio do mato, e o Mitsubishi de GN demorou uma hora para conseguir desatolá-los. Era já 17:00, e resolvemos dar meia volta para Cacuaco. Mas uma alma santa indicou outro caminho mais seco, paralelo ao anterior, sem valão, por onde decidiu-se passar. O “alma santa” é uma ironia, pois no meio da caminho, com a lama quase chegando na porta do carro, minha Mitsubishi atolou, e nem o carro da frente, nem o de trás conseguiram desatolá-lo. Imaginem a mim, de terno, atolado no meio do mato. E se você riu eu rogo praga, vai ficar ou brocha ou celulítica, que foi perrengue! Começou a escurecer, os mosquitos a aparecer, a mata a cantar seus mil barulhinhos de vida desconhecida. Tudo bem que em Angola não se vê um leão ou gato do mato há mais de 20 anos, mas cobra tem às pampas, eu comecei a me preocupar, ali parado não dava pra ficar. Chamei o povo e propuz que o grupo a minha frente seguisse para Viana, que eu pegaria carona com a família e tornaria a Cacuaco, e deixássemos meu carro ali. Depois de algum bate-boca, a coisa ficou assim. Por volta de 19:00, estava eu voltando para cacuaco, completando 13 horas nesta aventura.

A família angolana, muito gentil, me deu carona. O motorista, Seu Gilberto, dirigiu o carro de forma prudente, a 40Km/h, de quase Catete até Cacuaco. A família, muito católica, veio todo o percurso cantando hinos de louvor ao senhor e orando, pedindo proteção para a viagem de volta. Acabei por descobrir que era a mesma família que de manhã cedinho havia me avisado  que a ponte de Cacuaco tinha caído.Com a Sra. Dona Ilena, fiz amizade ao mostrar a imagem de Santo Antônio que levo sempre comigo, e fiquei bem sem graça em dizer que não, não era um presente, era só para que ela visse o santinho. E você, caro leitor, tire o sorrisinho da cara, fiquei sem graça mesmo. 

Às exatas 23:15 eu chegava ao Rèsidence, todo borrado de lama, fedorento, cansado e sem conseguir chegar a Luanda. E com um torcicolo de parecer estátua.

Na terça-feira, estava resignado em ficar mofando no Rèsidence. Sem carro, sem estradas, o melhor era ficar no ar-condicionado dormindo, afinal, se não tem solução, solucionado está.. Televisão não dava pois o receiver do satélite não funcionava para eu ficar vendo record europa ou globo internacional. Aos telefonemas do pessoal do trabalho sobre quando poderia chegar em Luanda, respondi gentilmente que só quando a ponte de Cacuaco estivesse refeita, ou que mandassem um barco ou helicóptero me buscar! Ora vejam só! Milagre eu não faço.

 Por volta de 11:30 peço que preparem o almoço; até 12:30 nada. Chega um português para almoçar, começo a bater papo, também desde segunda preso em Cacuaco, o almoço não fica pronto, e descubro que estavam, no dia seguinte, limpando a cozinha inundada para poder fazer nosso almoço. De improviso, acaba a luz. A gasolina do gerador tinha acabado. E sem acesso a lugar nenhum, todos os postos de gasolina da região já haviam esgotado suas reservas. PQP, meu gato pôs um ovo, gato não põe ovo, PQP de novo! Me senti no seriado Jericho.

 Em meio ao meu momento resignição, me liga o boss da empresa e me informa que está mandando um barco ir me buscar. Mas eu não tinha como ir à praia, visto que meu carro estava no mato. Mas a sorte estava ao meu lado, pois o português, em troca da passagem no mesmo barco, me ofereceu carona até a praia! Corri para arrumar uma mochila com meus principais pertences e algumas roupas, e chegamos à praia de Cacuaco às 15:30.

Aqui é preciso dar uma imagem do que é a praia de Cacuaco.. Lagoa Rodrigo de Freitas no período do peixe-morto é uma imagem boa. Mas é a praia que vocês podem ver no post anterior, de fotos que recebi por e-mail. Fomos pela areia, cheia de sujeira, entramos na água imunda até acima do umbigo, com os braços levantados levando as malas para o barco. E a 300 metros, na areia, os corpos estendidos dos mortos encontrados no mar e recuperados pelas autoridades, que foram levados pelas águas. Escrevo este relato na quinta-feira, e só em Cacuaco já se há mais de 54 mortes confirmadas devido à chuva.

 Depois de entrar no barco, em 20 minutos estava na Ilha de Luanda. Meu motorista foi me buscar no Club Náutico, fomos ao apartamento de um colega onde tomei banho, e às oito da noite, de banho tomado, eu estava já sentado em frente ao computador terminando a bosta da apresentação.

E para quem interessar possa, GN, os caçadores e o Land Rover, atolaram uns 15Km mais a frente no mato mais fundo ainda. Dormiram por lá. No dia seguinte mandaram um tratorzinho para tirar o carro deles de lá. Os carros saíram, mas o trator atolou. O meu Mitsubishi lá continua, amanhã vou tentar retirá-lo, estou esperando um período sem chuva.

Ainda não há acesso por estradas para Cacuaco. Amanhã talvez reabram a ponte e vou poder voltar ao meu Rèsidence, doce e sujo Rèsidence!

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