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Archive for the ‘Lento Mancar’ Category

O massacre de Congonhas e um retrato de Brasil

July 27th, 2007 Camelo 1 comment

O luto pelos mortos em SP no vôo 3054 da TAM está no coração de todos. E o massacre anunciado, antes abadonado ao léu, agora tem até maestro.

O Brasil que se cala perante a corrupção e que se contenta com bolsa-esmola, chora as vítimas. E o acidente gerou uma novra safra de críticas ao governo, e a como está estruturado o nosso Brasil, como há muito não havia visto.

Particularmente achei muito lúcidos dois artigos, um irritado e debochado, outro e sóbrio e pungente.

Espero mesmo que possamos nos transformar em um país sério. O primeiro passo é discutir.

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Lula Vaiado na abertura do Pan Americano de 2007 no Rio de Janeiro… Algumas poucas considerações

July 16th, 2007 Camelo 1 comment

Quando o Lula levou as vaias, na abertura do Panamericano 2007, fui avisado pelo meu pessoal do Rio. Me disseram que foi uma vergonha para o presidente. Fiquei curioso e fui até a página da Globo.com, na área de vídeos, querendo ver o que aconteceu. Nada. Hoje  lá  há apenas uma declaração do Lula  dizendo que não estava magoado com o Rio. Mas o vídeo está lá sim, meio escondido… No youtube, pelo contrário, está cheio de vídeos mostrando como foi. É só buscar por Lula vaia e aparece um tantão.

Escolhi um para mostrar pra você, com narração de Galvão Bueno.

É claro que a vaia é falta de educação. Muitos os comentários que vi na Internet de gente indignada com as vaias. Parece que elas são uma vergonha nacional, principalmente em um evento dessa monta, quando o país está no centro das atenções. Há quem diga que foi a claque do César Maia, há quem diga que foi a caracterização por parte do governo federal de “Pan do Brasil”, deixando o Rio em segundo plano. Eu sou carioca e digo de coração, o prefeito não tem esta força toda e, para nós, a festa do Rio é uma festa do Brasil.

A minha singela opinião é que os presentes no estádio guardam dentro de si, como muitos pelo Brasil afora, uma frustração enorme. Frustração não pelo Lula do bolsa Família, da estabilidade econômica, da política internacional, da Polícia Federal. Mas sim uma frustração pelo Lula conformado, que finge não ver as falcatruas funestas que por baixo dos seus olhos passam, que não se incomoda com o ter se aliado com abutres da pior espécie e que se esquece, não de sua origem humilde, mas sim da honestidade e ética que trouxe como bandeiras por tantos anos.

O PT se viciou (há quem diga isso desde antes de 2002), se transformou em tudo aquilo que sempre combateu, assim que chegou ao poder. Rápido demais para ter feito tudo sozinho. Se consultou certamente com ladrões mais espertos e mais vetustos.O presidente Lula, do alto do seu cargo, sacrificou os companheiros, meio sem jeito, é verdade, torcendo para que a verdade não fosse tão verdade assim, ou que ao menos não viesse a tona. Neste segundo mandato loteou cargos e ministérios pelo bem da “estabilidade política”, e está conseguindo termir de queimar para sempre sua imagem de pessoa reta.

E, no Maracanã, como em tantas milhares de outras ocasiões, foi dado um pontapé na canela de alguém. Pontapé na canela é falta, pode dar cartão amarelo. No fim das contas, as vaias que se ouviram naquele dia, queriam mesmo advertir a principal estrela do time, que se ele não se comportar, o jogo duro pode acontecer em todos os campos do país. Há quem diga que foi feio, que foi uma bola fora do rio de Janeiro. Pode até ser. Mas, presidente, quem não chuta não faz gol…

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Brasil Bicampeão da Copa América

July 16th, 2007 Camelo 4 comments

Aqui na Tunísia o pessoal estava exaltando a Argentina. Do atendente da padaria aos motoristas da empresa, todos falavam do poder de Messi, Mascherano, Tevez… Diziam que Abbondanzieri era um paredão impenetrável.
Chegou a noite de domingo, o jogo começou aqui às 23:00. E o Brasil sapecou logo 1 goll nos primeiros minutos. Não posso dizer que fiquei tranquilo, ainda mais quando Riquelme bota uma bola no travessão. Mas a noite era brasileira, e vencemos o jogo, bonito, e sem levar gols. Pobres hermanitos, na hora do vamos ver eles verde-amarelam!

E assim, mais um poster para a parede do escritório…(clique para ampliar)

A parede do meu escritório

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Trazendo pra perto um pouco de casa…

July 13th, 2007 Camelo Comments off

Com ajuda da Internet para encurtar as distâncias eu quase todos os dias tenho notícias de casa. Tenho construído uma rotina diária de plugar o iPod no computador toda noite e pela manhã ir para o trabalho ouvindo os podcasts da CBN. É engraçado pensar que os mesmos comentaristas que eu ouvia pela manhã indo da Barra ao Centro me acompanham do Lac a Charguia II. Aqui em Tunis, há rádios em Árabe e em Francês, transmitidas daqui mesmo, e algumas estações em italiano, que chegam devido à vizinhança com a Sicília. Na maior parte do tempo só há música, poucas notícias do resto do mundo, acaba sendo fácil ficar bitolado por estas bandas.
Aqui ninguém fala de pan-americano, o que me parece até razoável, afinal estamos na África. A Copa América interessa pouco ao pessoal, mas tem quem esteja doido pro Brasil apanhar da Argentina para poder me dar uma zoada, principalmente os italianos do trabalho. Os tunisianos todos do escritório já foram devidamente doutrinados e sabem que a Argentina deve ser devidamente agourada. E depois que preguei um poster do Fluminense Campeão da Copa do Brasil na parede do escritório, italianos e tunisianos, todos foram convertidos às três cores que traduzem tradição.
Deve fazer mais de um mês que não acendo a TV em casa, e minha única fonte de informação é a Internet. Pra dizer a verdade não sinto a mínima falta. Afinal o campeonato brasileiro não é transmitido por estas bandas ao vivo, só em reprise. Jornal eu leio online.
A distância de casa não me impede porém de ter um juízo formado sobre a situação do nosso país. A roubalheira que tenho visto nos noticiários não me impressiona. O que me impressiona é a cara de pau dos políticos e a apatia do presidente. Quando houve a crise que implodiu o PT por dentro, mostrando as vísceras podres para população, Lula se fingir de morto era mais do que esperado, apesar de ser uma atitude covarde. Mas agora é demais. A falta de credibilidade, seja do governo, seja da oposição, é tanta, que não há quem possa leventar a voz e falar grosso. O Senado brasileiro, que tanto enche a boca para se dizer uma instituição centenária, deveria ser uma garantia institucional de seriedade e de retidão. Mas infelizmente demonstra apenas que é corporativista e alcova de criminosos. Não se pode pedir que outros países nos respeitem no com´rcio e nas relações internacionais se nem mesmo nossos representantes eleitos nos respeitam. Porque é demasiada desfaçatez o que estão fazendo com o Brasil. Uma pena que depois de tantos anos de ditadura a democracia haja se tornado essa piada de mal gosto que vemos todos os dias. O povo brasileiro merece um pouco mais de seriedade.

iPhone no Brasil

July 7th, 2007 Camelo Comments off

Dizem que os hackers brasileiros estão entre os melhores do mundo. Desta vez eles ficaram para trás, já que quem coseguiu desbloquear o iPhone da Apple foi um coreano. O novo iPod/Wif/Celular já virou uma febre nos EUA e tem tudo para explodir no BRasil também. O iPhone desbloqueado já pode ser utilizado em qualquer lugar do mundo, com qualquer operadora GSM, inclusive no Brasil. No Rio de Janeiro já é possível inclusive comprar um, sob encomenda, em uma loja de sobrado na Rua Buenos Aires 44, no centro da cidade. Em São Paulo, há uma alternativa na Av. Hélio Pelegrino 480. Divirtam-se.

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Dinheiro no Colchão

May 19th, 2007 Camelo Comments off

Logo que cheguei aqui em Tunis, fiquei no hotel Acropole por algumas semanas, e saí em busca de um apartamento com a ajuda de uma das assistentes do RH daqui. Na verdade ela procurava  o cafofo e eu só ia dar o ok.
O apartamento encontrado no mesmo bairro do hotel, em Berges du Lac, um bairro relativamente novo aqui de Tunis. Fica no terceiro andar, com vaga na garagem e tem uma varanda interessante. Em duas semanas todas as burocracias foram resolvidas e me mudei para a casa nova.
No dia seguinte à minha mudança, quando estava me preparando para uma viagem de carro para um dos nossos worksites a 300Km de Tunis, me liga a proprietária do apartamento apavorada!
- Sabe como é, seu Roberto (ela me chama de Roberto, será que o único brasileiro que ela conhece é o Roberto Carlos?), esquecemos umas coisas no apartamente, o senhor podia buscar? Meu marido deixou umas coisas debaixo do colchão…Um dinheiro…
Eu logo pensei que tinha dormido em cima de uma fortuna! :) Eu sempre achei que aqueles rumores de dinheiro no colchão era bobagem..
Peguei o carro fui pra casa, comecei a procurar no colchao o dinheiro… E realmente, tinha lá a foruna de 180 dinares, algo como 250 reais.
Pois é meus amigos, se vocês moram de aluguel em um apartamento ou casa com os móveis e tudo do proprietário, faça uma limpa no colchão, pode ser que tenha uns trocados lá.

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Prometidas fotos de Parathy

April 9th, 2007 Camelo 3 comments

Que minhas férias em Parathy foram o máximo, todo mundo já sabe… Afinal falei tanto disso… Mas as fotos só hoje!

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Minhas primeiras impressões da Tunísia

April 8th, 2007 Camelo Comments off

Sim amigos, para aqueles que esperavam me ver de volta em Angola, tenho uma surpresa. Estou em Túnis, capital da Tunísia, um país que, comigo, totaliza a gigante comunidade de 34 brasileiros.

Antes de mais nada é preciso localizar o país no mapa, para perceber que é quase colado à Itália. Dizem que da ponta norte do país consegue-se ver a Sicília. Colonia francesa por muitos anos, a Tunísia tem como línguas principais o fracês e o árabe. Todos falam árabe, quase todos francês e um número incrível de pessoas falam italiano.

O país é governado há muitos anos pelo mesmo homem, Ben Ali, e conseguiu transformar-se em pólo turístico para os europeus que querem aproveitar prais lindas no verão, sem ter que viajar muito. Em menos de uma hora se pode voar de Tunis até Roma. Paris, Frankfourt, estão todas bastante perto.

Tendo chegado dia 03/03 ainda conheço pouco da cidade, estou com um Ford Fiesta alugado pela empresa há três dias, e devo dizer que estou positivamente impressionado. A cidade é bem mais limpa que o Rio de Janeiro, e sabe tratar o turista muito bem. Há vários sítios arqueológicos no país e espero poder conhecê-los logo para poder contar para vocês.

Faz um frio danado aqui! Eu achava que ia encontrar uma temperatura mais alta, mas de noite chega a 10 graus! E olha que o inverno já passou! Parece que no verão faz temperaturas carioquescas, ou seja, frio e calor pacas ao longo do ano.

A Tunísia é um país mussulmano, mas foge completamente do esteriótipo que a televisão nos vende. Há mulheres com o cabelo coberto, mas a maior parte se veste à ocidental mesmo. Muitas crianças com seus pais e, ao menos em Tunis, não vi um mendigo, um flanelinha, um pivete sequer. Há uma incrível sensação de segurança, e posso afirmar que aqui me sinto menos propenso a sofrer um assalto que na Europa. Não se pode nunca esquecer, porém, que na hora de comprar qualquer coisa é fundamental chorar, e muito, um desconto, porque comprar sem negociar pode ser o equivalente a ser assaltado! :) Um lálálálá ajuda pacas a diminuir o preço até de uma caixa de fósforos!

As pessoas aqui são muito prestativas. Eu, de onda, vou comprar um sanduba, por exemplo, num boteco qualquer, falo em português. Na maior parte das vezes o vendedor responde em árabe. Quando o samba do crioulo doido se instaura, eu solto uma palavra em francês, e aí os caras ficam realmente curiosos e se esforçam para enteder o que eu quero. E, invariavelmente, quando, depois de todo o esforço dele, eu agadeço em árabe, eles abrem aquele sorriso largo e dizem: Benvenue en Tunisie!

Hoje é domingo de Páscoa, e a única igreja da capital parece que lota. Ainda não sei chegar até lá, por isso vou me abster da missa. Mas fico morrendo de curiosidade de como deve ser a vida de um fiel católico aqui. Até hoje nunca tinha estado em um país com maioria de outra religião, e realmente é muito interessante rodar por uma cidade por dias e não ver nem mesmo uma igreja, mas é ótimo ficar livre de alguns pastores televisivos picaretas (praga que até em Angola prosperava).

Por falar em Angola, deixei alguns amigos angolanos em Luanda, e mando a eles em especial um abraço de boa páscoa. A Tunísia está sendo uma oportunidade profissional incrível, com desafios que a empresa em Angola não podia me proporcionar.

Agora para todos os outros amigos, uma boa páscoa e muitas saudades, principalemente da família e da minha querida que ontem tomou um passo importante para que fiquemos juntos até que a morte nos separe!

Fico devendo as fotos de Parathy, mas elas virão!

Que a força esteja com vocês! :)

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Um último clássico antes da África

March 29th, 2007 Camelo 1 comment

Esta noite tive a felicidade de assistir, via PPV, meu último FlaxFlu do semestre. Não fui ao Maracanã por pura preguiça, afinal sair da zona oeste para ver o jogo e chegar em casa à meia-noite é de lascar, e apesar da já tê-lo feito centenas de vezes, hoje eu preferi ver o jogo na minha sala.

O Fluminense nos últimos tempos vem decepcionando a torcida, não rende o esperado, carece de gols e de ídolos. Mas hoje, apesar de começar perdendo, virou a partida em seu último minuto, com um golaço de Cícero!

Espero que seja um sinal positivo para minha viagem para a Tunísia, de onde só volto em Agosto.

Parabéns Fluzão! Continue assim, que de lá vou acompanhando como posso!

Fico devendo as fotos de Parathy, quem sabe amanhã…

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Fuga de Cacuaco

January 25th, 2007 Camelo 12 comments

Os amigos leitores mais frequentes devem ter notado que já há algum tempo não dou notícias. Espero que entendam que não estive presente por motivos de força maior. Vou fazer um resumo dos fatos insólitos desta semana para que vocês possam, principalmente, se divertir. Me arrependo profundamente de não estar com a máquina fotográfica nestes dias comigo.

 Domingo, dia 21 de janeiro deste 2007, estive o dia inteiro trabalhando em Luanda, na casa de um colega, em uma apresentação que deveríamos fazer para um cliente de alta patente, que além de abrir gigantescas portas, poderia gerar gigantescos contratos. A apresentação estava programada para segunda-feira às 17:00, e por volta da meia-noite de domingo eu estava com ela quase completada. Como era tarde, e eu precisava voltar para o Rèsidence em Cacuaco, cerca de 20Km de onde eu estava em Luanda, ponderamos que finalizaríamos a apresentação no dia seguinte, afinal o que faltava era detalhe estético. Cheguei ao meu quarto em Cacuaco era passada meia-noite e uma fina garoa caía sobre nós.

Segunda-feira, seis horas da manhã, toca o despertador. Me espreguicei na cama, apertei o soneca do despertador e ronquei mais 15 minutos, sob o murmúrio de uma chuva intensa. Como sempre acontece pela manhã, veio aquela vontade de ir ao banheiro aliviar a bexiga, me girei na cama, e fui procurar, com o pé, no escuro, as sandálias havaianas. Água. O chão estava coberto de água fria! Ponho o outro pé no chão, levanto, corro para o interruptor, acendo a luz e vejo quarto e banheiro alagados, havainas e garrafas de água mineral vazias boiando, assustador! Quando me preparo para ir reclamar na recepção, uma pequena enxurrada de água e terra entra assim que abro a porta. O rèsidence, a excessão de 3 dos 8 quartos, estava alagado e cheio de lama. Cozinha, recepção, banheiros, tudo alagado. A água surgia da rua, da piscina que transbordava, da cisterna cheia, do esgoto. Se o leitor somar uma enchente do Rio Maracanã, uma ressaca no Leblon, e um desabamento no Alto, chega perto do que aconteceu no Rèsidence.

Eram 6:30 da manhã, ninguém havia acordado do pessoal que trabalha ali, e eu era o único hóspede. Acordei o rapaz da recepção, que dormia no sofá e não tinha notado que lá também estava alagado, e ele, meio dormindo, ao ver a situação me olhou com desdém e disse: “- Está chovendo mesmo forte, ó pá!”. Voltou a se deitar, tranquilo, como nada de mais estivesse acontecendo! Não aguentei a cara de apu e lhe gritei nos ouvidos, mandei desligar a eletricidade antes que alguém morresse eletrocutado, e que me desse a chave de outro quarto, seco. Enquanto eu passava uma vassoura para tirar o excesso de água do corredor, para evitar que o outro quarto se alagasse, o carinha voltou a dormir, reclamando que sem luz não havia ar condiconado.

Às 8:00 eu estava com tudo no outro quarto, de abnho tomado, pronto para sair, pela primeira vez de terno e ainda chovia forte. Liguei para Luanda avisando que me atrasaria devido à chuva, entrei no Mitsubishi 4×4 Diesel, e comecei o caminho até a base onde meu motorista me espera todos os dias, cerca de 10 a 15 minutos do Rèsidence. Veio comigo um rapaz angolano que pediu uma carona, o mesmo fdp que dormia no sofá. Não recusei, pois se atolasse precisaria de braços, afinal de terno na lama é barra. Mas passei pela lama com certa facilidade, e, chegando ao asfalto, havia uma compreensível ausência de carros. A chuva estava forte, e a maioria dos carros não aguenta as poças e a lama da cidade, em geral esperam a chuva passar.

Vim tranquilo, passei a vila de Cacuaco, e ao chegar perto da ponte que liga Cacuaco a Luanda, um carro que cruza na direção contrária, com uma família dentro, faz sinal e avisa que a ponte está coberta de água, que está muito perigoso passar. De qualquer maneira continuei no meu caminho para ver se a ponte estava cheia d’água a ponto de não passar o Mitsubishi. No trajeto, pouquíssimos carros, mas muitas pessoas gritando e chorando, suponho porque a casa tinha sido levada pela chuva ou estava alagada, uma verdadeira multidão na pista. Acabei por desistir antes mesmo de chegar às salinas antes da ponte. Liguei novamente para Luanda, avisei a situação e me disseram que havia um outro caminho, por Mulenvos de Cima. Eu conhecia o caminho até certo ponto, mas de Mulemvos para Viana não me parece ser complicado, e lá fui eu.

A pista estava intransitável, o carro atolou duas vezes, o preguiçosos do sofá saiu e empurrou, minha vingança e acabei voltando para o Rèsidence.

Era algo como 11:00 quando um colega de Dondo (GN) apareceu no Rèsidence, vinha para Luanda entregar alguns documentos, mas com a ponte caída em Cacuaco, não tinha como chegar no escritório. Tomamos café da manhã (eu tinha saído antes em jejum), a chuva parou, e resolvemos ir a Catete, uma cidade que fica a 1h30 de Luanda, e de lá irmos para Viana (o mesmo município ligado a Mulemvos), de onde há uma outra estrada para Luanda, praticamente todo o trajeto asfaltado ano passado por uma empresa portuguesa. GN tinha passado por lá para chegar a Cacuaco. E lá vamos nós pôr o pé na estrada.

Apesar de asfaltada, a estrada tinha lá seus contratempos.Passamos por várias poças d’água que chegavam quase à maçaneta da porta, e em algumas parte o asfalto havia sido inundado por terra e lama, e só se passava com a tração ativada. Quando nos aproximávamos de Catete, uns 15 minutos antes, um grupo de pessoas se aglomerava no meio da estrada. Saímos do carro para ver o que acontecia, e onde havia a estrada, entre duas lagoas, só havia um buraco e asfalto cortado. Uma parte da pista tinha sido levada pela força das águas. Sorte de quem passou por ali, como o GN, poucas horas antes. Decidimos voltar a Cacuaco e tentar outra estrada de terra, onde há um projeto chamado Terra Verde, de cultivo agrícola, entre Cacuaco e Catete. Também interditada, com carros atolados por toda parte. Ajudamos um carro a sair do atoleiro, onde estava um grupo de caçadores. Eles pretendiam seguir viagem para Luanda a todo custo, e falaram de uma picada, antes da ponte caída de Catete, por onde poderíamos passar.

Depois de uma pequena assembléia decidimos tentar achar a “picada”, e já eramos quatro carros. O caçadores, em um Land Rover, mostravam o caminho, seguidos por GN no seu Mitsubishi, por mim, em um Mitsubishi igual, e por uma família em um jipe desses japoneses que não sei identificar. O Comboio seguiu para Catete, e pouco antes da ponte, havia realmente uma estradinha de terra pela qual seguimos. Acabamos por chegar em uma vila, com dois portugueses anciões morando em duas casas antigas, acabadas mesmo, com um empório onde vendiam biscoitos fabricados na Arábia Saudita, água fervida, e milho assado. E ponto. Paramos, comemos (eu apenas biscoito seco, que “água fervida” comigo não cola), assuntamos e nos informamos o caminho.

 Os velhinhos garantiram que com 4×4 se passava pela picada até a estrada de Viana, coletamos um grupo de locais que vivem em casebres no entorno das casas para ajudar e mostrar o caminho. Foi realmente uma aventura a lá Indiana Jones. Bem lentamente começamos a seguir a estrada, que cada vez mais nos levava floresta adentro. Passamos por um rio, por muitas poças e o Land Rover, para tentar desviar de um valão de lama, resolveu seguir pelo capim, fora da estrada. Nesta hora eu me dei conta de que os caras eram loucos, esta terra está cheia de minas, todo dia explode uma, principalmente nessas beiradas do fim do mundo…

Não explodiram mas acabaram enterrados no meio do mato, e o Mitsubishi de GN demorou uma hora para conseguir desatolá-los. Era já 17:00, e resolvemos dar meia volta para Cacuaco. Mas uma alma santa indicou outro caminho mais seco, paralelo ao anterior, sem valão, por onde decidiu-se passar. O “alma santa” é uma ironia, pois no meio da caminho, com a lama quase chegando na porta do carro, minha Mitsubishi atolou, e nem o carro da frente, nem o de trás conseguiram desatolá-lo. Imaginem a mim, de terno, atolado no meio do mato. E se você riu eu rogo praga, vai ficar ou brocha ou celulítica, que foi perrengue! Começou a escurecer, os mosquitos a aparecer, a mata a cantar seus mil barulhinhos de vida desconhecida. Tudo bem que em Angola não se vê um leão ou gato do mato há mais de 20 anos, mas cobra tem às pampas, eu comecei a me preocupar, ali parado não dava pra ficar. Chamei o povo e propuz que o grupo a minha frente seguisse para Viana, que eu pegaria carona com a família e tornaria a Cacuaco, e deixássemos meu carro ali. Depois de algum bate-boca, a coisa ficou assim. Por volta de 19:00, estava eu voltando para cacuaco, completando 13 horas nesta aventura.

A família angolana, muito gentil, me deu carona. O motorista, Seu Gilberto, dirigiu o carro de forma prudente, a 40Km/h, de quase Catete até Cacuaco. A família, muito católica, veio todo o percurso cantando hinos de louvor ao senhor e orando, pedindo proteção para a viagem de volta. Acabei por descobrir que era a mesma família que de manhã cedinho havia me avisado  que a ponte de Cacuaco tinha caído.Com a Sra. Dona Ilena, fiz amizade ao mostrar a imagem de Santo Antônio que levo sempre comigo, e fiquei bem sem graça em dizer que não, não era um presente, era só para que ela visse o santinho. E você, caro leitor, tire o sorrisinho da cara, fiquei sem graça mesmo. 

Às exatas 23:15 eu chegava ao Rèsidence, todo borrado de lama, fedorento, cansado e sem conseguir chegar a Luanda. E com um torcicolo de parecer estátua.

Na terça-feira, estava resignado em ficar mofando no Rèsidence. Sem carro, sem estradas, o melhor era ficar no ar-condicionado dormindo, afinal, se não tem solução, solucionado está.. Televisão não dava pois o receiver do satélite não funcionava para eu ficar vendo record europa ou globo internacional. Aos telefonemas do pessoal do trabalho sobre quando poderia chegar em Luanda, respondi gentilmente que só quando a ponte de Cacuaco estivesse refeita, ou que mandassem um barco ou helicóptero me buscar! Ora vejam só! Milagre eu não faço.

 Por volta de 11:30 peço que preparem o almoço; até 12:30 nada. Chega um português para almoçar, começo a bater papo, também desde segunda preso em Cacuaco, o almoço não fica pronto, e descubro que estavam, no dia seguinte, limpando a cozinha inundada para poder fazer nosso almoço. De improviso, acaba a luz. A gasolina do gerador tinha acabado. E sem acesso a lugar nenhum, todos os postos de gasolina da região já haviam esgotado suas reservas. PQP, meu gato pôs um ovo, gato não põe ovo, PQP de novo! Me senti no seriado Jericho.

 Em meio ao meu momento resignição, me liga o boss da empresa e me informa que está mandando um barco ir me buscar. Mas eu não tinha como ir à praia, visto que meu carro estava no mato. Mas a sorte estava ao meu lado, pois o português, em troca da passagem no mesmo barco, me ofereceu carona até a praia! Corri para arrumar uma mochila com meus principais pertences e algumas roupas, e chegamos à praia de Cacuaco às 15:30.

Aqui é preciso dar uma imagem do que é a praia de Cacuaco.. Lagoa Rodrigo de Freitas no período do peixe-morto é uma imagem boa. Mas é a praia que vocês podem ver no post anterior, de fotos que recebi por e-mail. Fomos pela areia, cheia de sujeira, entramos na água imunda até acima do umbigo, com os braços levantados levando as malas para o barco. E a 300 metros, na areia, os corpos estendidos dos mortos encontrados no mar e recuperados pelas autoridades, que foram levados pelas águas. Escrevo este relato na quinta-feira, e só em Cacuaco já se há mais de 54 mortes confirmadas devido à chuva.

 Depois de entrar no barco, em 20 minutos estava na Ilha de Luanda. Meu motorista foi me buscar no Club Náutico, fomos ao apartamento de um colega onde tomei banho, e às oito da noite, de banho tomado, eu estava já sentado em frente ao computador terminando a bosta da apresentação.

E para quem interessar possa, GN, os caçadores e o Land Rover, atolaram uns 15Km mais a frente no mato mais fundo ainda. Dormiram por lá. No dia seguinte mandaram um tratorzinho para tirar o carro deles de lá. Os carros saíram, mas o trator atolou. O meu Mitsubishi lá continua, amanhã vou tentar retirá-lo, estou esperando um período sem chuva.

Ainda não há acesso por estradas para Cacuaco. Amanhã talvez reabram a ponte e vou poder voltar ao meu Rèsidence, doce e sujo Rèsidence!

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