O Taxi e o Busão

Desde que cheguei no Kuwait sempre fui de um lado para outro de carro, com algum colega ou com o motorista. Eu não tenho carro aqui (pelo menos por enquanto) e isso acabou por me deixar a mercê dos resturantes da vizinhança, que não são poucos. A maioria é de comidas asiáticas e eu considero meio agressivo começar em um novo país com o risco de piriri. Me sobraram o Pizza Hut e o Burger King. Nos últimos dias eu tinha me virado com o que comprei no supermercado, mas ontem foi um dia cansativo e me deu vontade de comer um bifão estilo Outback.
Sem carro e sem conhecer a cidade, eu e um colega do Turquemenistão (em turcomeno Türkmenista) resolvemos nos aventurar em um shopping só de restaurantes que vimos quando voltávamos do escritório.
Já na rua fizemos sinal para um taxi que vinha em alta velocidade. Quando nos viu o motorista fez uma lambança daquelas: freiou como um louco e quase levou uma trombada do carro que vinha de trás. Eu e o colega entramos no taxi, meio ressabiados, e um garoto novinho, paquistanês, estava dirigindo. Explicamos meia boca onde era o lugar, mas ele nos olhava intrigado, meio sem entender nada… Fizemos sinal para ele seguir e explicamos com gestos onde ele deveria ir (apesar de não termos certeza onde era!). Depois de rodar como peru bêbado por uns 20 minutos conseguimos chegar em um restaurante, que não era no lugar onde queríamos ir, mas que entrava no estilo Outback, o Chilli’s. O taxista cobrou o que quis (não pelo taxímetro, que nem ligava), e pagamos mesmo tendo uma vaga impressão de estarmos sendo carcados.
Jantei muito bem, um suculento bife com milho e legumes, mas fiquei abismado com o preço salgado. Aparentemente tudo no Kuwait custa muito caro, e comida pelo menos o dobro de que no Brasil.
Quando saímos do restaurante ficamos esperando passar um taxi. Estávamos criando raízes depois de 20 minutos no frio (fazia 12 graus), quando passou um ônibus, e decidimos entrar. O engraçado foi que o turcomeno saiu batido da entrada do ônibus para as cadeiras do fundo, e me deixou pagando ao motorista as passagens. Dentro havia passageiros com cara de filipinos, indianos e uns árabes, mulheres cobertas e não, um pouco dessa mistura de gente que vive aqui. Mas os únicos com cara de ocidentais éramos eu e o turcomeno, que tem toda a pinta de russo, louro branquelo de nariz inchado.
Eu fiquei em pé na frente, perto do motorista e da porta, pois não sabia o trajeto do ônibus, só que ia para os lados de casa. Assim que visse algo de conhecido, algum ponto de referência ou o prédio, sabia teríamos que pedir para parar. Mas o cara foi lá pro fundo e ficava fazendo sinal para que eu fosse pra lá, e eu fazendo mímica para que ele viesse pra frente. O ônibus inteiro ficou olhando pra gente como se fossemos dois alienígenas. Foi uma sensação desconfortável. Depois de um tempo uma filipina com a filhinha começou a cochicar com outra numa língua incompreensível e se danaram de rir de nós. Eu queria desaparecer, não entendia o porquê, mas sentia que estava pagando um mico danado.
Logo chegamos bem em frente ao nosso prédio, e no próximo ponto eu saltei. Lá veio o cara todo esbaforido, correndo para a porta do meio. Saiu e me passou um sabão, dizendo que eu tinha que ir para trás com ele pois o ônibus aqui tinha divisão, mulheres na frente e homens atrás, devido a alguma lei muçulmana. Fiquei encucado, pois não tinha lido em lugar nenhum essa regra, eu sei que há países árabes assim (e mesmo alguns asiáticos), mas aqui no Kuwait me parecia novidade. Afinal homens e mulheres frequentam os mesmos restaurantes, shoppings e escritórios. Há gente de tudo quanto é nacionalidade e religião. As únicas regras explícitas que remetem ao Islã é a proibição ao álcool e à carne de porco. Mas realmente o povo nos tinha olhado estranho.
Hoje perguntei a um filipino que mora aqui há alguns anos e ele me confirmou que essa divisão não existe. E me disse que provavelmente o pessoal devia estar olhando espantado nossas mímicas. Outra coisa que é pouco normal é que falamos ao motorista do ônibus em inglês, e geralmente os habituês do transporte coletivo falam árabe ou hurdu (língua difusa entre paquistaneses e indianos). Não é normal que expatriados peguem ônibus, apesar de não apresentar perigo nenhum.
Vivendo e aprendendo… Mas se precisar sei que posso pegar o ônibus sem medo para jantar no Chilli’s!

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