Archive

Archive for January 8th, 2007

Viagem para Dondo

January 8th, 2007 Camelo 7 comments

A viagem que fiz no Reveillon, para Dondo, me mostrou outra Angola. A Luanda cinza e empoeirada deu lugar a pequenos vilarejos pobres salpicados em meio a vegetação abundante e paisagens maravilhosas. Na época da guerra, viajar para Dondo era uma epopéia. Estradas em péssimo estado de conservação, com verdadeiras crateras, pontes destruídas por bombas que obrigavam o viajante a dar voltas por “picadas”, e o risco de assaltos e de minas faziam com que a viagem durasse no mínimo 10 horas.

Hoje, apesar de ainda ser uma estrada ruim, as crateras diminuiram, e aos poucos se está asfaltando e duplicando a pista. O tráfego de pessoas ainda é bastante controlado, em dados momentos há “fronteiras” em que todo viajante é obrigado a parar, se identificar, e dizer para onde vai.

Não tivemos problema algum na viajem, que durou algo como 5 horas e meia, com direito a várias paradas para xixi e fotos. Viajamos em dois carros, um colega italiano no carro da empresa, e eu fui de carona com um português em seu carro particular. O português, calejado de Angola desde o período colonial, contou um pouco de histórias do tempo das imensas plantações da algodão da época em que fora de Luanda havia imensas fazendas algodoeiras. O algodão, hoje praticamente inexistente em Angola, teve papel tão importante na economia local que, quando da independência, sa folhas de algodão foram colocadas na bandeira do país. Esta foto mostra, no caminho para o Dondo, o que restou das plantações de Algodão.

DSC04287.jpg
DSC04295.jpg
DSC04296.jpg

DSC04286.jpg

A foto a seguir, mostra uma lagoa ao fundo, grande que parece mar. Esta área é hoje muito pobre, mas antes da guerra era reduto de portugueses de férias, havia alguns restaurantes à beira da Lagoa, e até mesmo um pequeno hotel. Hoje se planeja reconstruir um pouco da região, que não dista muito de Luanda, acredito que seja o município de Catete.

DSC04292.jpg

A foto com a polícia é de um vilarejo a cerca de uma hora de Luanda, e as pessoas estavam reunidas em torno de um acidente com uma moto e um carro onde o motoqueiro morreu e o carro fugiu. É corriqueiro aqui que o autor do acidente fuja do local, muitas vezes indo se entregr diretamente na delegacia, deixando o acidentado por lá. O motivo principal é que quando há um atropelamento, as pessoas lincham o atropelador, e melhor ir preso que deixar a pele.

DSC04283.jpg

Depois de Catete, a estrada piora, e começa uma área com um pouco de floresta dos dois lados da via.

É estranho que praticamente não há barulho na floresta, à excessão de um ou outro pio de pássaros. Me explicou o português que durante a guerra os animais foram exterminados pelos combatentes, que caçavam para sobreviver. Hoje começam a aparecer novamente alguns animais, sinal que a natureza está se recuperando. Claro que elefantes e girafas, só se importarem, mas parece que alguns bichos de menor porte estavam escondidos nas florestas, como os macacos. Mesmo sem macacos, olhem que vistas lindas…

DSC04322.jpg

DSC04328.jpg

Quando chegamos ao centro de Dondo encontramos este lindo casarão colonial, em relativo bom estado de conservação.

DSC04330.jpg

O céu da África é incrível, esta foi retirada no Alto Dondo, onde é possível também ver um cartaz com a foto do Presidente da República, José Eduardo dos Santos. Pelo país inteiro há fotos dele, inclusive dentro de lojas e casas.
DSC04331.jpg
Do Alto Dondo é possível ir em duas direções. Dia primeiro seguimos para Kambambe, onde há uma barragem  com produção de energia hidrelétrica.  Um paraíso que vou mostrar para vocês em alguns poucos dias!

DSC04332.jpg

Categories: Angola, Lento Mancar Tags:

O Cabeludo

January 8th, 2007 Camelo 5 comments

Em Dondo, no dia 1º de janeiro, tive a oportunidade de conhecer o Cabeludo. O Cabeludo é um português, que em 1972 chegou à Angola com as tropas de Portugal para lutar contra o movimento de independência angolana. Depois dos dois anos de serviço militar, resolveu ficar por aqui, e depois de uns anos acabou se estabelecendo na cidade de Dondo, que pouco sofreu em termos de combates durante a guerra, e onde vive há mais de 20 anos.
O Cabeludo é um dos personagens estranhos desta África, que continua a me surpreender. Ele passa todo o dia sentado na rua central de Dondo, uma aléia arborizada, com velhos casarões portugueses da época colonial em estado decadente, vendendo cartões de telefone pré-pag enviados de Luanda pela filha mais velha, que faz universidade na capital.
As pessoas da cidade chegam, ele bate papo, pedem cartões, ele vende, tem no bolso um maço de dinheiro daqui, outro de dólares, e parece ser bem querido por todos. Abraça as velhinhas, pergunta da família, um verdadeiro diplomata do povão daqui.
Um dos italianos que está trabalhando em Dondo para nossa empresa me contou que o Cabeludo é o único branco da cidade. E os únicos mulatos são os filhos dele. Nestes anos de África o Cabeludo que coleciona selos de todo o mundo, e inclusive me pediu alguns do Brasil, desenvolveu uma coleção interessantissíma de filhos. O bendito tem 24 filhos, de várias mulheres diferentes. Vive com todos eles e com a esposa mais recente em algumas casas coloniais das quais se apropriou depois da independência. As casas foram transformadas em oficinas, e os filhos trabalham a madeira e o ferro, aprendem o ofício do pai e vida que segue. Certamente hão de ser um clã diferenciado no meio da cidade…

Mando algumas fotos desta rua em Dondo, inclusive do Cabeludo. Dondo é uma cidade adorável, bucólica, realmente agradável. É certamente perdida no tempo, como o interior de Angola que conheci, e me pareceu uma Parati abandonada no meio da floresta, invadida pela poeira e pelo descaso que sucederam os anos de guerra. Vejam vocês as fotos e comentem!

PS: Os “miúdos”, que para nós são os intestinos e vizinhança, para o povo daqui são as crianças. Pois os miúdos das fotos são todos crias do Cabeludo!

DSC04347.JPG

DSC04348.JPG

DSC04349.JPG

DSC04350.JPG

DSC04351.JPG

DSC04352.JPG

DSC04353.JPG

DSC04354.JPG

DSC04355.JPG
Categories: Angola, Lento Mancar Tags: