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Archive for December 26th, 2006

Bonecas Angolanas

December 26th, 2006 Camelo 4 comments

Desde que cheguei aqui, encontrei um movimento estranho no Residence. Uma série de caminhões chegavam, muitas vezes tarde da noite, e descarregavam caixas e mais caixas em um depósito dentro do hotel. Como não queria sarna para me coçar, eu não perguntei nada a ninguém, mas fiquei com a pulga atrás da orelha. O que seria aquilo, afinal? Coisa boa não parecia… Chegavam sempre no meio da noite, lá pelas 21:00, decarregavam caixas e mais caixas. Foi assim desde que cheguei, mas semana passada o movimento se inverteu.
Agora as caixas escoavam do Hotel para caminhões, com destino desconhecido. Dizem que quando não se tem nada para fazer pensamos sempre bobagem. Pois depois do trabalho, naquele hotel, não tem nada para fazer… E eu vendo as caixas indo embora…
Uma noite, curioso, como quem não quer nada, me cheguei para os lados de onde saiam as caixas. Na porta do depósito havia uma brecha, e mesmo estando escuro, olhei de relance e levei um susto! Eram caixas de bonecas! Bonecas de plástico, grandes, negras, com um sorriso na cara! O que diabos este trafico de bonecas significava eu não sabia, mas agora eu ao menos sabia que o que entrava e saía eram bonecas… Será que haveria alguma coisa estranha dentro delas?
Fiquei ressabiado, mas fiquei quieto. Na África há uma quantidade enorme de fraudes, contrabando e esquemas ilícitos, e eu não tenho nada com isso. Podiam estar traficando cocaína, diamantes, sei lá o que! Mas no dia 23 tudo se esclareceu…
Era sábado, e por isso fomos para o Residence mais cedo. Sentei na beira da piscina, perto da gerente, que conversava com um dos funcionários, exatamente sobre as bonecas. E vi que eu estava mesmo era fantansiando… A dona do Residence é uma jornalista famosa em Angola. Está todo dia na TPA, o canal de televisão estatal. Uma Fátima Bernardes daqui. Como não é boba nem nada, resolveu tirar partido da fama e encomendou, do Brasil, alguns containers de bonecas feitas à sua feição, e contratou uns ambulantes para vender a dita cuja pro Natal. A boneca da dona virou uma febre de consumo entre a classe média de Luanda, e as bonecas saíram que nem água… Tanto que no dia 23, tinha gente pagando quase 100 dólares por cada uma…
Cabeça vazia, casa do capeta, já diziam os antigos!

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Complexo B

December 26th, 2006 Camelo 1 comment

Desde que cheguei aqui, o que realmente me impressionou foi a quantidade de mosquitos. Malária e Febre Amarela são doenças comuns mesmo na capital, Luanda. Devido aos 30 anos de guerra, uma enorme favela de refugiados surgiu nos contornos da cidade. Para dizer a verdade, parece até que a cidade em si, como conhecemos nós uma cidade, com asfalto, casas de alvenaria e prédios, é um pequeno cisto em meio a uma favela gigante. Um dia ainda confirmo isto olhando de cima ou via Google Earth…Imaginem como é propício para a disseminação de doenças, e do mosquito em particular, em ambiente tão insalubre.
Antes de partir, me deram uma dica fenomenal. Vitamina B espanta os mosquitos daqui. Comecei a tomar complexo B uns dias antes de partir e desde que cheguei NENHUM mosquito me picou. Os italianos ficam loucos, porque os mosquitos lhes atacam com ferocidade ímpar, sangue novo no pedaço! Eu contei a todos o truque da vitamina B, mas me olharam com desdém, achando que era papo pra boi dormir.
Um deles, porém, o “angolano”, de quem contei a estória do assalto uns dias atrás, resolveu tentar. Combinamos, que no caminho para o trabalho pararíamos na “farmácia popular”, e compraríamos o complexo B. De manhã, pegamos o carro, e uns funcionários do hotel pediram carona até a cidade, subimos todos no carro, eu, o italiano e 3 locais. Paramos na farmácia popular e o italiano, não querendo sair do carro, pediu a um dos angolanos que entrasse na farmácia e comprasse o complexo B para ele. Devo dizer que aquilo me incomodou, me pareceu uma forçada de barra.. O carinha volta, diz que custa 350 Kwanzas e o gringo lhe dá 700 e pede 2. Volta ele com duas cartelinhas mixas de Complexo B, e toca para o trabalho. Aquilo me pareceu caro demais, quase 10 dólares… Mas tudo bem…
De tarde, fui ao supermecado e na volta fui comprar cartão telefônico a pedido do pessoal do trabalho. Aqui, há umas lojinhas pela rua, com plaquinhas dizendo “vendo cartão”. Mas são construções em barro, em madeira, dá até medo entrar! Meu motorista saiu para comprar os cartões, e eu, a diferença do italiano, o acompanhei. A lojinha era uma pequena farmácia, com uma senhora vestida de branco no balcão, mas por fora não dava para ter idéia do que diabos fosse!. Compramos os cartões, e por curiosidade perguntei se tinha complexo B. Me deu uma cartela, exatamente igual a que tínhamos comprado pela manhã. Perguntei o preço : 30 kwanzas! Comprei duas cartelas, levei para o gringo que só faltou arrancar os bigodes de raiva! O italiano mais “angolano” do grupo tinha acabado de reconhecer que fora embrulhado pelo carinha… E acho que a raiva foi tanta também porque deve ter se dado conta que, nestes anos todos de Angola, deve ter sido enrolado centenas de vezes! Mas pelo menos, se tomar o complexo B de 10 dólares, afasta os mosquitos!

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Jantar de natal

December 26th, 2006 Camelo 1 comment

Todo dia, quando janto, eu janto no Residence. Não que haja escolha, ali por perto não tem nada de confiável. O preço é salgado para os padrões do Rio de Janeiro, a refeição sai US$10, mas é uma pechincha para Luanda. E não chega nem aos pés do bom esquimó. Pouca comida, já sei porque este povo é magrinho…
Na noite do dia 24, nos ofereceram um jantar especial. Montaram uma mesa ao aberto, enfeitaram tudo com luzinhas, e fizeram uma mesa de doces, com bolo de banana, uvas passas, nozes, etc… Tudo muito bonitinho, feito com boa vontade… E a janta foi Bacalhau com Grão de Bico. Devo confessar que comi o bacalhau por educação, porque nunca tinha comido um bacalhau tão chinfrim… Era engraçada esta mesa, com os 4 italianos, eu e dois mineiros do Brasil, um português do tempo de Angola colônia, e 2 angolanos que trabalhavam pro “gajo”. Todos comendo, quietinhos, com cara de quem fingia gostar do prato, para não ofender o povo do Residence… Vocês devem entender que aqui, não há muita escolha. Eu chamo o lugar de Residence, de hotel, mas é na verdade uma casa adaptada a receber hóspedes, com um serviço praticamente inexistente, bem simplesinho mesmo! Não tinha nem condições de reclamar!
Acabamos de comer, o pessoal do hotel foi pro seu canto, e aí começou uma guerra pela sobremesa, que efetivamente estava boa! Foi uma loucura… Pratos comr estos de bacalhau e grão de bico por toda parte, para limpar na manhã seguinte… Mas nem um farelo de bolo de banana, uva passa, etc…
Que ceia! :-)

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Sabado morto

December 26th, 2006 Camelo 1 comment

Todos os sábados eu tenho como obrigação participar de uma reunião com o cliente e os outros principais fornecedores para relatar o andamento de uma das nossas obras. Nesta em particular nosso traabalho já se encerrou, e minha participação é mais para verificar o andamento dos trabalhos das outras empresas. Geralmente estamos presentes nós, uma empresa chinesa, responsável pelas obras civis, uma empresa brasileira, responsável por parte do projeto e pela fiscalização do andamento das obras, e por uma empresa portuguesa, que é responsável por algumas poucas obras de “acabamento”, como canaletas, sarjetas, e portões. Nós fornecemos principalmente equipamentos e somos responsáveis por uma parte do projeto, elaborado com tecnologia italiana. Além de nós, fornecedores, estão sempre presentes autoridades angolanas, chefe de polícia, pessoal do exército, e gente da empresa estatal que nos contratou.
Havia eu já preparado algum material para poder seguir a reunião com algum conhecimento de causa, já que sou bicho novo na área, mas a reunião foi adiada. Apesar de ser onde judas perdeu as botas, eu estava doido para ir na reunião, afinal é uma quebra de rotina, chance de ver paisagens novas, e conhecer gente nova. Com isso tive que vir ao escritório, e hoje, perto do natal, não há praticamente nada para fazer.
Mesmo a Internet resolveu não funcionar. Não sei quando este e;mail será postado, mas o estou escrevendo no sábado, 23 de dezembro. E não é só a internet. Parece que deu uma pane em Luanda. A rede de celular da Unicel caiu, e desde ontem, telefonar e receber chamadas se transformou em uma tarefa hercúlea. A rede fixa e à rádio também está instável. O trãnsito está mais infernal do que o normal, todo mundo comnprando presentes de natal, a cidade em polvorosa. Para ir ao centro se demora 2 horas parado no trãnsito. E começou a faltar água. Por sorte no Residence temos uma cisterna grande, e devemos ter água sem problemas até depois do natal, quando a situação tende a se normalizar.
Agora vou tentar ir ao supermercado comprar algumas coisitas para casa e também para o escritório. São 10:30 da manhã de sábado dia 23… Se voltar antes das 14:00, acho que já vai ser lucro!

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